Sabe quando você perde alguns quilos – ou aparenta ter perdido peso – e as pessoas começam a reparar e a comentar coisas como: “Nossa, você está linda!”, “Você emagreceu? Tô te achando mais bonita.”? Então... é aí que a coisa começa a piorar.
Até os doze anos eu sempre fui magra – naturalmente magra – e por isso nunca me importei muito com minha alimentação e comia todas as porcarias possíveis. Só que, a partir dos meus treze anos, eu passei a engordar sem ao menos perceber (como eu já comentei em um post anterior) e as pessoas passaram a comentar, a dar dicas, a dizer que eu devia me cuidar um pouquinho mais, fechar um pouco a boca. Na época eu não dei ouvidos, eu realmente não reparava tanto em meus quilinhos a mais, e quando reparava não conseguia me importar o suficiente para resistir a uma bacia de pipoca.
Não sei ao certo como aconteceu, mas, no verão entre 2009 e 2010, eu perdi alguns quilos, talvez por comer menos sem reparar, talvez por ter percebido meu ganho de peso e ter, inconscientemente, passado a comer um pouco menos. E as pessoas voltaram a comentar, dessa vez coisas positivas. As pessoas elogiam tanto quando alguém perde peso, fazem a pessoa sentir como se ela fosse incrivelmente linda, como se ela tivesse mudado para algo muito melhor. E eu senti isso, eu senti toda aquela alegria de receber elogios, toda aquela magia em me sentir linda. Foi aí que eu comecei a sentir medo de voltar ao meu antigo peso. Eu senti medo de voltar a ter aqueles olhares de pena, de escutar pessoas sussurrando sobre como minha blusa me deixou gorda. Eu senti medo de perder todos esses elogios, todas essas pessoas que pareciam sentir inveja de mim. Eu me sentia feliz porque eu pensava que estava causando inveja em alguém, porque eu acreditava que eu estava a alguns passos de um corpo perfeito. Mal eu sabia que eu estava a menos de um passo de meu inferno pessoal.
Eu passei a diminuir as calorias cada vez mais, passei a pular refeições, a dormir no horário do almoço; a acordar tarde para não precisar tomar café da manhã. Eu tentava dormir o máximo que eu pudesse, e quando estava acordada eu bebia térmicas de café para evitar a fome. Rapidamente as coisas foram piorando, as porções foram ficando cada dia menores e os intervalos entre uma refeição e outra passaram a contar dias e não horas.
Eu passei a sentir culpa por cada garfada que eu desse, por cada gole de algo que não fosse água ou café. Meus pais passaram a desconfiar, e então eu comecei a fazer pesquisas que duravam a tarde toda, eu corria de um link para outro, criando planos de como escapar de refeições, de como me livrar daquilo que eu havia comido e não queria mais sentir dentro de mim, de como enganar as pessoas ao meu redor, de como enganar meu estômago.
Talvez se as pessoas não tivessem comentado, talvez se elas soubessem elogiar por um cabelo bonito, por uma pele macia, por um texto bem escrito ou por uma boa escolha de roupa, as coisas não tivessem chegado a esse ponto. Talvez se as pessoas não pensassem tanto que ser magra significa ser bonita, que ser magra significa ser saudável, que ser magra é algo que merece ser elogiado e visto como exemplo, muitas garotas não chegariam a pontos tão perigosos. Talvez se as pessoas entendessem de uma vez por todas que todo mundo merece se sentir perfeito exatamente da forma como é, deixaria de existir pessoas que se destroem para se sentir confortável dentro de si.
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