E dessa vez eu não suportei. Dessa vez eu desmoronei. Dessa vez, essa parte de mim venceu. Dessa vez meus tornozelos realmente ardem e neles existem novas marcas. Dessa vez senti o vazio, a falta de pulso. Dessa vez senti todo medo, toda vontade de escapar, me esconder e inexistir.
terça-feira, 17 de abril de 2012
segunda-feira, 16 de abril de 2012
E hoje, hoje eu não consigo acreditar nessa força, nessa calma e alegria que tenho me gabado por conquistar. Hoje, hoje sequer sei se quero isso pra mim, se me importo. Tento lembrar de tudo que conquistei, de todas as coisas que costumam me manter em pé, firme e segura, mas sinto com se elas escapassem de mim, como se escorressem por entre meus dedos. E eu não sei mais se tenho algo para perder. E eu não sei mais se sou digna de ter algo, de ter alguém. E eu não sei mais quem eu sou, não sei mais como parei aqui.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Minha pele está tão limpa, meus braços e tornozelos estão tão lisos e macios. Falta algo, faltam marcas. E sinto tanta saudade, tanta falta de força, tanto vazio e tanta vontade. Quem sabe apenas um pequeno arranhão, só isso.
E só eu sei o quanto preciso me segurar para não ceder, para não deslizar a lâmina pela pele mais uma vez. Porque eu sei que não seria apenas um arranhão, eu sei que logo estaria com os braços cheios, com a cabeça planejando novos cortes, novas direções, e, quando eu menos esperasse, seria só nisso que eu poderia pensar.
Então fico aqui, olhando para meus pulsos vazios e tentando me orgulhar, tentando não sentir falta.
E só eu sei o quanto preciso me segurar para não ceder, para não deslizar a lâmina pela pele mais uma vez. Porque eu sei que não seria apenas um arranhão, eu sei que logo estaria com os braços cheios, com a cabeça planejando novos cortes, novas direções, e, quando eu menos esperasse, seria só nisso que eu poderia pensar.
Então fico aqui, olhando para meus pulsos vazios e tentando me orgulhar, tentando não sentir falta.
sábado, 7 de abril de 2012
O mais estranho de tudo isso é que, mesmo sabendo de toda dor, de todo tempo lutando para conquistar controle, de todo desespero e medo, uma parte de mim ainda tenta voltar, ainda se encanta e se ajoelha, ainda enfraquece, implora, e admira. É como se uma parte de mim precisasse disso, uma parte de mim adorasse a dor, o drama, o fracasso, o terror.
Essa parte de mim busca por fotografias, busca por ossos que os quilos a mais já esconderam, busca por curvas que antes não existiam, e sente tanta raiva, tanto nojo. Essa parte de mim enlouquece, promete não mais comer, promete voltar a miar, promete que tudo voltará ao que era. Essa parte de mim repete, como se sussurrasse em meus ouvidos, que estou sozinha, que ninguém mais se importa, que posso me destruir outra vez.
Em alguns momentos do dia sinto que não tenho nada a perder, sinto que posso voltar, me desesperar e, quem sabe, desaparecer. No resto do tempo, quando posso enxergar claramente tudo que tenho ao meu redor, sinto medo de me deixar levar, de me machucar e machucar todo mundo outra vez.
Essa parte de mim busca por fotografias, busca por ossos que os quilos a mais já esconderam, busca por curvas que antes não existiam, e sente tanta raiva, tanto nojo. Essa parte de mim enlouquece, promete não mais comer, promete voltar a miar, promete que tudo voltará ao que era. Essa parte de mim repete, como se sussurrasse em meus ouvidos, que estou sozinha, que ninguém mais se importa, que posso me destruir outra vez.
Em alguns momentos do dia sinto que não tenho nada a perder, sinto que posso voltar, me desesperar e, quem sabe, desaparecer. No resto do tempo, quando posso enxergar claramente tudo que tenho ao meu redor, sinto medo de me deixar levar, de me machucar e machucar todo mundo outra vez.
Já faz um tempo que tenho vontade de falar sobre alguns assuntos da minha infância, mas sempre acabei adiando. Provavelmente por, nos últimos meses, ter evitado pensar nessas coisas. Mas acho que agora já consigo lidar com isso de uma forma mais calma. Não sei ao certo como e quando começou, mas sei que, desde meus seis anos, lembro de trazer comigo essa sensação de ser um peso, de não ser desejada em lugar algum. Eu nunca senti que eu pertencia a algum lugar, que meus pensamentos seriam bem vindos, que minhas idéias tinham algum valor. Sempre, tanto em casa quanto na escola, eu tinha a sensação de que eu era intrusa, de que, em dado momento, as pessoas cansariam de mim e me mandariam embora.
Em casa, principalmente, eu sentia uma espécie de culpa extrema pela minha própria existência, por mais bobo que isso pareça. Era como se eu sentisse que estava estragando tudo, como se tivesse certeza absoluta que minha família era mais feliz sem mim.
Dos meus seis até os oito anos eu acreditei que eu tinha alguma espécie de bichinho ruim vivendo dentro de mim, que me fazia ser má e magoar as pessoas. Depois eu notei que não havia bichinho nenhum, que o problema era unicamente em mim. Mas não era como se eu pudesse desaparecer de uma hora pra outra, como se eu pudesse escolher não atrapalhar mais. Então eu esperava, simplesmente esperava que algum dia alguém notasse e me dissesse o que fazer, que alguém me mostrasse um lado mais bonito da história, ou que simplesmente me ensinasse a desaparecer.
Existia essa parte de mim que desejava firmemente morrer, e eu sentia como se estivesse esperando por isso, já que, por mais que eu desejasse inexistir, faltava coragem. Meu medo verdadeiro era falhar e ter que lidar com explicações, falhar e ser obrigada a contar tudo aquilo que, durante anos, estive tentando aprender a verbalizar.
Dos seis anos até os dezesseis, passei cada segundo com essa sensação, e acredito que ninguém, em momento algum, desconfiou que houvesse algo errado. Eu era uma criança/adolescente, e, aparentemente, crianças e adolescentes não lidam com problemas, apenas exageram em seus pequenos dramas.
Com 13 anos, depois de uma discussão com minha irmã, e por ter assistido um programa sobre uma garota com bulimia, coloquei o dedo na garganta pela primeira vez. Eu não me sentia gorda. Eu não estava com medo de engordar. Eu não sentia peso algum no estômago, o problema era apenas eu, ali parada, ali existindo. Eu só queria chamar atenção, eu só queria que alguém se preocupasse, que alguém me perguntasse, que alguém me forçasse a dizer.
Alguns dias depois fui descoberta vomitando, e, ao contrário do que eu imaginava, tudo que escutei foram broncas. Desisti de chamar atenção, e acreditei que eu nunca mais faria algo parecido.
Em 2010, a bola de neve me engoliu. Eu não só esperava por atenção e ajuda devido a todos aqueles sentimentos que trazia desde a infância, como esperava socorro para esses meus outros problemas, que me agrediam ainda mais. Parecia não haver problema algum em me destruir, em arranhar, rasgar e queimar minha própria pele. Era minha pele, e eu não me importava. Parecia não haver problema algum em passar fome durante dias, e, em um momento de desespero, comer todos os doces que conseguisse. Era comigo, era um problema meu, e eu não me importava mais. Parecia não haver problema algum em enfiar o dedo na garganta todas as vezes que sentisse necessidade. Era meu corpo, minha vida, meus dias, e, nem eu, nem ninguém, se importava.
Na metade de 2010 fui descoberta, e, mais uma vez, ninguém pareceu entender o que estava acontecendo comigo. Aparentemente eu só estava fazendo meu papel de adolescente, inventando problemas, exagerando, e fazendo coisas erradas. E, por mais que depois de alguns meses tenham notado que eu não estava brincando, que aquilo tudo era real e eu estava sem controle, e que tenham me colocado em uma psicóloga e uma nutricionista, sinto até hoje que eles, meus pais, irmã, alguns amigos, tios e primos, ainda não entendam a intensidade de tudo que estava acontecendo comigo, o quão forte e insuportável foram esses anos.
Acredito que não é só na minha família. As pessoas tendem a pensar que problemas como esses, problemas não palpáveis, problemas que não podem ser explicados facilmente, de fato não existem, são inventados. Quer dizer, um fim de namoro, uma traição, um amigo morto, um assalto, um aborto, uma demissão, esses são todos problemas reais, exigem ajuda, abraços para as lágrimas, conforto e tempo. Agora, esse desespero, esse nojo de ser você mesmo, de ser obrigada a viver dentro desse corpo, dentro desses limites, essa sensação de que tudo na sua vida está fora do seu controle, de que você precisa ser salva, de que você é o seu pior inimigo, parece pedir apenas por puxões de orelha, algumas ofensas e comentário irônicos.
Depressão não é falta do que fazer. Automutilação não é necessidade de atenção. Anorexia não é futilidade. Futilidade, para mim, é perder o foco porque alguém terminou um namoro com você. É perder o foco porque falta dinheiro, porque falta tempo, porque algo mudou e você não esperava por isso.
E eu só queria dividir tudo isso com vocês, para que, se algum pai, alguma mãe, algum irmão ou amigo de alguém que também passa/passou por isso, perceba que, às vezes, só é necessário um abraço e alguns minutos da sua atenção. Às vezes só é preciso que você escute um pouco, que respeite e valorize essa luta que você não enxerga, não entende, mas existe - e como existe, e como dói - e que dedique um pouco de seu tempo para dizer isso, para dizer que se orgulha, que se importa, e que, não é porque essa pessoa apresenta defeitos que ela não é bem vinda, muito pelo contrário. Porque, você dizendo isso, você deixando isso claro, poupará boa parte do tempo que se perde para descobrir isso tudo sozinho.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Eu não fui entregue em uma assistência técnica onde foram substituídas todas minhas peças defeituosas. As peças continuam todas aqui, inteiras ou não. A diferença é que agora eu aprendi a continuar funcionando.
Quer dizer, existem dias, como hoje, em que sinto ter esquecido o ritmo certo, sinto ter me perdido observando uma dessas pequenas peças trabalhando errado. E, nesses dias, eu empaco, perco o ar, me desespero, me entrego, penso em voltar, penso em miar, penso em me cortar, penso em me esconder, em me encolher e chorar.
Algumas vezes, penso e faço, em outras só penso, espero e, de uma hora para outra, passa. Algumas vezes, enquanto espero que passe, dói tanto que transborda, atingindo quem está ao lado. E eu me esforço tanto pra não deixar isso acontecer, me esforço tanto para funcionar todos os dias, para ninguém notar essas peças que se recusam a funcionar, essas partes de mim que me envergonho em ter.
domingo, 1 de abril de 2012
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